pessoal

Uma miúda em 2013

31 Maio, 2020

Não sei quanto tempo demorei fora de casa, sendo que na maioria só vagueei pelas ruas, tentando consumir mais um minuto para evitar chegar à realidade. À realidade de ter de me deitar sem saber onde pertenço, onde quero chegar, qual a minha missão e o porquê de ainda me levantar, sabendo que todos os dias o desfecho é o mesmo.

A escuridão da rua não é maior do que a que carrego, não é maior do que a minha. A escuridão apoderou-se do meu corpo e afundou-o num poço escuro, sem fim, e sem meios de escapatória. Existem muros enormes entre mim e todos os outros. Há uma enorme dor e medo de não conseguir ser nada mais do que isto. Nada mais do que uma miúda assustada e sem saber o que fazer. Uma miúda apaixonada que se magoa por culpa de um amor condenado. Uma miúda apaixonada que fica observando o seu amor com outra, sem nem pestanejar ou chorar. No fundo, uma miúda forte que só se permite desabar na sua almofada, no seu quarto escuro. Uma miúda que se enche de coragem antes de sair, mas que volta desolada e ainda mais magoada.

Até quando? Até quando poderá continuar este sofrimento? Este não saber sentir mais nada do que apenas dor? Este não saber deixar de sentir? Este sentir sufocante que devora as entranhas e nos faz ficar atónicos sobre todas as situações? Até quando irei permitir a dor me consumir? Até quando irei deixar que no meu coração permaneça alguém que não sente o mesmo por mim? Até quando poderei sentir sem correspondência? Até quando irei me humilhar perante alguém que não me ama e não me dá atenção? Até quando irei mendigar a sua atenção? O seu amor? Até quando irei ser ignorante sobre todos os meus sentimentos e à sua própria ignorância? Até quando poderei manter-me no mesmo lugar sem desmoronar por fora?

Continuo andando, na rua escura. O mundo parece que pausa, ao ver-me andar. Até quando irei evitar uma decisão mais difícil? A cada passo que dou, estou mais perto de casa, da realidade, do pesadelo. A cada passo, estou mais longe de fingimentos e da minha destruição. E também a cada passo me encontro mais perto de encontrar uma noite de insónia à minha espera, sentada na minha cama, preparada para o cenário de todas as madrugadas: ver-me chorar até mais não e ver-me levantar sem nem ter dormido.

Diziam-me que a vida podia ser muito cruel na adolescência. Não é a vida. Nunca foi a vida. São as pessoas. As pessoas são cruéis com os adolescentes, as pessoas gostam de impingir dor aos jovens porque acham que os mesmos devem crescer dessa forma, que essa forma é a melhor forma de crescer e de mudar. Existem melhores formas de conseguir mudanças e crescimento, que não envolvem dores e depressões.

São as pessoas que nos desmoronam e destroem. São as pessoas que nos tiram a ingenuidade e nos mostram como é o mundo real, como são verdadeiramente a humanidade e quem nos rodeia. São as pessoas que nos fazem sofrer, não a vida. Elas são cruéis. E infelizmente, nós também nos tornamos. Viramos uns imbecis cruéis. Viramos destruidores de inocência e de alegria. Nos tornamos no que nos transformou e magoou. Isso é, sem sombra de dúvidas, a pior realidade que queríamos, mas que a temos assim que nos permitimos destruir e destruir os outros. No final, todos seremos cruéis. É a humanidade, miúda. Se é apenas a humanidade fazendo o que faz de melhor.

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    Andreia Morais
    31 Maio, 2020 at 19:29

    «Nunca foi a vida. São as pessoas», estava a ler e a pensar isso mesmo! A vida é desafiante, sem qualquer dúvida, mas há muita coisa que acontece e que magoa, apenas, por causa do ser humanos. Somos nós que influenciamos positiva ou negativamente, dependendo da nossa postura

    • Carolina
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      Carolina
      24 Junho, 2020 at 21:00

      Sempre e só nós temos o poder de dar voz e poder aos outros. São sempre as pessoas, mas temos de tentar não as deixar influenciar tanto a nossa vida, os nossos passos.

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