pessoal

[ pequenos começos ]

16 Maio, 2020

Foto: Pequeno começo, no domingo (10.05.2020)

Acordar já começa a ter um gosto diferente. O pequeno almoço ainda não é engolido à pressa, enquanto já queremos enfiar na boca a escova dos dentes e pegamos na chave do carro, ao mesmo tempo que queremos vestir o casaco.

Ainda não passamos horas no trânsito — não que passasse minutos sequer no congestionamento —, ainda não regressamos à rotina propriamente dita. Ainda acordamos devagarinho, apreciamos o pequeno almoço (quase almoço), ainda dormimos umas horas extra (ou então, dormimos as 8 horas direitinhas porque andamos a ir para a cama tarde), ainda há medo de sair à rua e por enquanto, ainda nos satisfazemos com os banhos de sol no quintal/jardim. 

Os pequenos começos já começaram e já conseguimos ir ter com a nossa pessoa-casa, já conseguimos matar saudades de quem tanto nos faz falta, sempre com cuidado, com excesso de zelo e de medo, de algo correr mal e voltarmos a estar fechados e longe de quem amamos. 

Colocamos o nosso melhor outfit, sem ser o pijama, uns óculos de sol bonitos e até parece que compramos outro carro, porque já nem o nosso sabemos conduzir. Aprendemos a conduzir devagar (ou, se forem como eu, ainda não), a apreciar a paisagem pela viagem, a desfrutar de uma música enquanto fazemos a nossa viagem de reencontro. 

Os pequenos começos começam devagarinho, em baby steps, porque por enquanto, não sabemos até quando o perigo vai manter-se. Já não estamos aprisionados, estamos livres, mas esta não é a liberdade com que nos acostumamos. É uma liberdade diferente. Uma realidade completamente diferente e desafiadora. 

Agora saímos com acessórios diferentes, só que necessários e importantes. Não damos boleias. Muitas vezes, nem conseguem ver-nos o sorriso no rosto. Em umas esquinas já vi pessoas ainda mais frias, umas quantas pessoas a desviarem-se umas das outras. Andar de mão dada parece uma realidade de séculos atrás. E se damos a mão, a união está lá, mas há uma barreira de látex a proteger-nos a ambos, a impedir o calor de entrar, de nos sentirmos verdadeiramente em casa. 
Até o amor é posto à prova, ainda mais agora. Se o amor de hoje já não era como antes, agora será ainda mais difícil ver casais na rua, ver alguém apaixonado. 

Temos de acreditar que estamos todos unidos (porque estamos mesmo), apesar da distância, juntos estamos a viver todos a mesma situação, ainda estamos a adaptar-nos a esta nova realidade, todos à sua maneira e ao seu tempo. Nem todos vão aceitar à primeira, haverão uns quantos a esquecer-se das regras, a esquecer o acessório mais importante no carro e a ir correr buscá-lo, porque a nossa vida depende disso. Depende do acessório. Depende de nós. 

Aos pouquinhos, vou voltando a estar perto do mar, a ouvi-lo. A escolher os sítios mais afastados das pessoas. A escolher um sítio verde e azul para admirar, em paz e em silêncio. O mar nem sempre é barulhento, e os locais que antes estavam sempre cheios, hoje têm um ruído mudo.

Pequenos começos: voltar ao mar, reencontrar-me com quem mais gosto, começar a deixar de lado o pijama durante o dia e voltar, aos pouquinhos, à rotina agitada de antes, só que desta vez, com mais calma. 

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    Andreia Morais
    16 Maio, 2020 at 18:09

    Um bem haja a estes pequenos começos, que nos vêm trazer uma nova motivação!

    • Carolina
      Reply
      Carolina
      18 Maio, 2020 at 0:42

      Assino por baixo. Por algum lado temos de começar, mesmo que devagarinho.

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