love tales

O amor já teve dias mais felizes.

17 Junho, 2020

O primeiro maior soco no estômago que tive foi quando me apercebi que a realidade da adolescência doía. O segundo foi quando me deparei com a ausência de quem mais fazia por mim, sem sentir falta.

Quando desejei que ele fosse feliz, mas não do meu lado, algo nele se deteriorou rapidamente, quando das minhas costas um grande peso saía, sem que eu soubesse que de facto, o carregara, ou por quanto tempo o fazia. A leveza que senti doeu, porque na minha frente tinha a pessoa mais especial e mais dedicada de sempre. Doeu porque jamais iria conseguir fazê-lo feliz, com a falta do meu amor e afeto. Doeu porque não era capaz de fazer feliz alguém que me amava e eu, em tempos, amara também.

Como podemos deixar de amar quem nos trata bem? Como simplesmente um botão deixasse de funcionar? Qual seria a desculpa para um amor que se tinha esvaziado, como um pote que vai diminuindo o seu conteúdo até não restar nada? Como pode o amor recíproco, que não nos magoa, virar pó, de um momento para o outro? Quão egoísta posso ser, ao ponto de não saber amar quem mais me ajudou e apoiou?

O nosso amor virou cinzas, antes de eu poder ver o incêndio que entre nós dois havia. Tudo se incendiava, sem que nos déssemos conta, reduzindo tudo o que um dia construímos a um simples pó. Os nossos alicerces partiram-se, diante dos nossos pés, sem que nos déssemos conta do abalo.

Amar dói, mas não amar, dói mais ainda. Queria desejá-lo todo o amor deste mundo, ainda que as suas lágrimas inundassem o local onde estávamos, ainda que a sua voz rouca me pedisse que lhe desse outra oportunidade, como se fosse ele, de facto, o culpado pela minha falta de amor. Não havia culpa. Não havia oportunidades a dar. Havia apenas a falta de um amor que se incendiara e apagara rápido demais.

Aquela primeira noite doeu mais do que alguma vez havia pensado que doesse. A dor atingiu um limite avassalador, onde na alta madrugada me senti engolida pelo meu próprio silêncio e as paredes pareciam encolher-se em meu redor e a cama engrandecer, sem aquele corpo musculado ao meu lado. A ausência dele doía. A ausência da sua respiração calma, enquanto dormia profundamente, sempre deixando o seu peito ou o seu braço disponível para mim, me servindo de alento e de lar.

Quando é que viramos costas ao nosso lar? Quando é que deixamos de sentir-nos em casa quando tudo o que temos é apenas a nossa casa? O meu lar estava vazio, longe de mim, numa esquina qualquer, trancado no carro, sem entender o porquê de não o amar, o que fez de errado, o que podia ter feito melhor, quando a única coisa que ele sempre fez foi dar-me o melhor e amar-me apesar de todas as coisas. Ele me amou e continua amando, quando simplesmente do meu lado a chama se evaporou. Tanto que esperei dele, sendo superadas todas as expectativas, fora eu que nada lhe tinha dado e que tudo tinha arrancado.

A primeira vez que fiz pequeno almoço depois de cinco anos tendo panquecas quentes à minha espera de manhã, com o meu cappuccino de chocolate, foi amargamente dolorosa. As torradas estorricaram, o cappuccino não ficou com a medida certa de açúcar, nem de leite, a cozinha ficou uma desarrumação inacreditável e o ar parecia irrespirável. Cada passo que dava, à volta das nossas coisas, faziam-me apoiar nas paredes para que não caísse. E nem por um momento, a ausência dele me fez chorar ou desejar tê-lo de volta. A ausência dele não me fez ver o quanto o amava. No meu peito apenas havia um coração que batia, por conta própria e em automático, sem dono a que pertencer. Continuava leve, ainda que sem sorriso e quando entrei em casa, já de noite, com a mesma escura e vazia, vi que esta era a realidade dura de não se amar ninguém. Um vazio sufocante e um silêncio ensurdecedor. Já não nos pertencemos mais.

Uma casa cheia de memórias, álbuns inteiros com as recordações de um amor mágico e feliz, e um coração vazio. O amor já teve dias mais felizes.

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    Andreia Morais
    17 Junho, 2020 at 14:11

    «Quando é que viramos costas ao nosso lar? Quando é que deixamos de sentir-nos em casa quando tudo o que temos é apenas a nossa casa?», esta parte é tão dolorosa! Parece que somos arrastados para um mar desconhecido. Mas, por mais que custe, também faz parte do processo, porque crescemos e deixamos de nos identificar; porque, como referes, deixamos de pertencer ao outro.

    • Carolina
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      Carolina
      24 Junho, 2020 at 20:55

      Há medida que vamos crescendo todas as nossas certezas viram incógnitas. Tudo se transforma e as relações não saem impunes a isso. 😕

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