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Não existem vidas perfeitas.

25 Setembro, 2020

Decorriam-se dias e dias, em que pela mesma rua ia, seguindo a rota mais longa até casa, apreciando as gargalhadas vindas de cafés e esplanadas, sentindo-me só e diferente. As pessoas pareciam viver uma vida incrível, rodeadas de amigos de quem mais gostavam, com uma alegria contagiante que só elas conheciam.

Caminhava hesitante, de mala ao ombro, carregando uns quantos manuais num braço, olhando discretamente para um de tantos sorrisos e de tantos olhares. Ocasionalmente, temos inveja da vida dos outros, da felicidade que transbordam porque, ingénuos, pensamos que a vida alheia é só felicidade e aquilo que vemos. Aquilo que vemos é uma fachada, um minuto de 24 horas, um minuto de uma vida inteira. Desconhecemos as batalhas, os problemas, as suas mentes inquietas, os seus sorrisos forçados, as suas gargalhadas falsas, a quantidade de vezes que perscrutam o relógio de pulso, pensando numa desculpa para ir embora. Quando estamos do lado de fora, a pele dos outros nos parece melhor, porque desconhecemos as desvantagens de caminhar com o peso que carregam.

A erva do vizinho sempre será melhor do que a nossa, só que desconhecemos tudo o resto. Não podemos definir uma pessoa pela quantidade de vezes que sorri num dia; muito menos, podemos definir alguém como feliz, por vê-la sorrir numa esplanada; não podemos considerar alguém rodeado de bons amigos, só porque estão acompanhados.

Existem tantas incógnitas. Aquilo que mais queremos na nossa vida, move-nos para uma ilusão frustrante. A vida não é aquilo que parece. Todos nós temos um problema. Todos nós estamos lutando contra alguma coisa. As nossas mentes são irrequietas, existem inúmeras frustrações, prazos a cumprir, insónias, dias comprimidos e expectativas. Expectamos tanto dos outros e expectamos ainda mais de nós, devido ao que achamos que todos têm, quando vivem todos em alvoroço, com medo da sua própria pele e da sua mente.

Todos travamos batalhas silenciosas e dolorosas. Elas não se medem por sorrisos banais, dados na esquina de algum edifício. Não podemos definir uma vida pela quantidade de sorrisos que demos.

O tempo vai passando, vou seguindo, caminhando cada vez mais apressada, entendendo o quanto não desejei estar na minha pele, quando nem sequer sabia se conseguiria estar noutra. Só invejamos o que não compreendemos. Invejamos a pele que não é nossa, por ser mais fácil acreditar que existem peles perfeitas e vidas perfeitas. Não existem.

Na maioria das vezes, vivemos sem nunca compreender o que nos move e o que nos faz ficar, depois de tudo. Estamos a descobrir-nos lentamente e a saber reconhecer o esforço de cada um e não simplesmente julgar pela aparência ou pela energia que emanam em determinado momento. Isso diz muito da nossa maturidade e sobretudo, da nossa experiência.

Durante todos aqueles semestres, aprendi a não me sentir tão só. Todos nós estávamos progredindo, acertando e errando, e a cada dia, fui-me sentindo menos sozinha numa batalha que não era só minha. Todos estão tentando subir a montanha, no nosso tempo, com tropeções e erros. Vamos todos conseguir.

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    Andreia Morais
    25 Setembro, 2020 at 18:11

    Há alturas em que até é inconsciente, mas tendemos a medir a nossa felicidade ou incerteza pelas conquistas dos outros. E esquecemo-nos que o nosso caminho não é igual!

    • Carolina
      Reply
      Carolina
      13 Outubro, 2020 at 10:29

      Cada um segue o seu caminho, no seu tempo e dentro das suas próprias possibilidades.

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