desafios

Bloqueio de escritor.

15 Agosto, 2020

A mão nos falha, a caneta cai e as palavras vão. Os melhores textos não fui a tempo de os escrever, ficando guardados para sempre no meu ser.

Por vezes, tudo o que sentimos não conseguimos transbordar para o papel, a mão nos falha, o peito dói e a tinta seca, sem nunca ter sido usada. Colocamos-nos em perspectiva e tão pouco nos apetece transcrever as lições que vivemos.

Ser escritor é ter as palavras a esvoaçar-nos pelos dedos, a alma a pulsar em cada texto que escrevemos e um amor às letras incondicional. Ter o dom de saber escrever é mais do que formular frases ao acaso. É mais complexo do que isso. Demoramos a entender para que fomos feitos, demoramos a ter a poesia que nos irá inspirar.

Ser poeta não é saber escrever poesia. Ser escritor não é saber escrever. É sim, transbordar sentimentos em todas as linhas, não ter onde mais guardar tantas memórias sem que nos pertencem, ter a sensibilidade elevada, o olhar diferente sobre cada paisagem e ensinamento. Não é sobre escrever, mas sim sobre sentir. Sentir à flor da pele e transbordar em letras pequenas, toda a imensidão que nos vai no peito.

Quando as palavras nos falham, parte de nós se quebra. Os bloqueios também acontecem. Nem todos os instantes ou emoções são propícios de boas histórias. Ainda que haja vontade, escrever é mais do que fazer o que se sente no momento, ou contar uma história. É necessário aceitar que é preciso parar. Deixar vir as novas ideias se encaminharem para o nosso plano de imaginação. É deixar fluir e não exigir mais sem conseguir.

Ter um bloqueio inquieta-nos, deixa-nos à deriva, como se a nossa vida dependesse das letras. Nem todos os dias são dias de escrever. Existem dias em que apenas teremos de lidar com as emoções de uma única maneira: sentindo-as na sua magnitude, sem questioná-las ou demovê-las em palavras.

Um bloqueio faz-nos sentir sem ter para onde fugir; tira-nos um refúgio onde amamos estar e é por isso que faz todo o sentido acontecer. Se não nos permite escrever, ao menos, sentimos e aproveitamos para viver, sem documentar o que nos vai na alma e no pensamento. Esperar. O bloqueio faz-nos esperar. Resta-nos esperar que o vento traga as letras ao nosso alcance, para podermos abandonar-nos num único papel.

[Publicação inserida no Projeto 642]

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    Andreia Morais
    15 Agosto, 2020 at 18:23

    Os bloqueios só não acontecem a quem não escreve. Mas, por mais frustrantes que sejam, também fazem parte do processo e acabam por ser um alerta para pararmos e concentrarmos a nossa atenção noutras coisas. Claro que, quem faz das palavras a sua vida, nem sempre é fácil desligar, porque há obrigações e prazos a cumprir, ainda assim, é importante aceitarmos esta realidade, até para a conseguirmos desconstruir.

    • Carolina
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      Carolina
      26 Agosto, 2020 at 13:09

      Ora nem mais. Também acredito que o seja. É necessário também parar e mudar de rotas, às vezes. Daí que não gosto muito de escrever porque tenho prazos a cumprir e obrigações. Escrevo sem pressões e é o que tem feito sentido para mim, até para não me pressionar demasiado.

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