love tales

As flores não duram para sempre

21 Março, 2020

É tão estranho e ao mesmo tempo, tão doloroso, saber que não há mais nada a fazer. O fim já aconteceu, só falta desunirmos as mãos e deixar o outro partir, deixar-nos partir. Insistimos tanto, não aceitamos a desistência, para no fim, o mesmo cenário acontecer.

A cada dia que passava, sabia que já nada era igual. Os passeios tinham sido reduzidos, os pequenos almoços na cama tinham terminado há vários meses atrás, os beijos de bom dia e de boa noite já não existiam, o nosso toque era forçado, forcávamos-nos a continuar uma união de fachada.

Não podia desistir. Amava-o e tinha de fazer tudo para que ele escolhesse ficar. O que tinha para lhe oferecer, que não tivesse oferecido ainda? Essa questão perdurou no meu peito por dias e dias e cheguei à conclusão mais dolorosa de sempre: se com tudo o que fora dado, ele não escolhera ficar, então não haveria mais nada que o fizesse olhar para trás.

Estava disposta a lutar, de mãos amarradas, de pés atados, só com o coração guiando. Tinha tudo para correr mal. Tentei, tentei. Nada consegui, a não ser um afastamento ainda maior. O seu amor tinha acabado. Assim, do nada. Só que não tinha sido do nada. Há detalhes que nos vamos apercebendo e ignorando. Esses detalhes já são provas de que já tudo murchou. As flores não duram para sempre, assim como o amor, ele disse-me uma vez. E é tão verdade. Talvez na altura, já soubesse que o nosso fim era uma questão de tempo.

Preparei-me para a despedida. Ensaiei, todas as minhas feições possíveis, para não demonstrar a dor que sentia. Nos despedimos no sítio onde nos tínhamos conhecido. Com todas as suas histórias cravadas na minha pele, desunimos as nossas mãos. As cicatrizes apareceriam mais tarde, quando as feridas curassem a falta de amor. Vi-o afastar-se, sem nem derramar uma lágrima, sem se despedir, sem nem me pedir desculpa. Estava tudo dito. Não havia ressentimentos da sua parte. Desisti, mas jamais esqueceria.

Havia um buraco no meu peito, inconfundível. Estava um vazio esmagador. Senti-me quebrar e os meus joelhos tocaram no chão de madeira, onde o pôr do sol, ainda estava em trajetória. Quis gritar e da minha boca nada saiu. O silêncio consumiu-me. Olhava fixamente as mãos e via o quanto tinha: nada mais do que eu própria.

Limpei as lágrimas com frieza e levantei-me. Não perdia tempo no chão, para que me baixassem ainda mais. Aprendera a cair e a levantar com a mesma velocidade. O capítulo tinha terminado e ainda tinha uma vida inteira de histórias por escrever. O vazio no meu peito haveria de desaparecer, com a força do meu amor próprio.

As despedidas sempre custam. Há um medo absurdo de chegadas, quando sabemos que vêm acompanhadas de partidas. Nem mesmo assim, deixamos de envolver-nos. São histórias que ficam, marcas que perduram na pele e no coração. Se assim não fosse, não estávamos cá a fazer nada. Sentimos, logo existimos. É preciso sentir, especialmente a dor.

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    Andreia Morais
    21 Março, 2020 at 20:21

    As despedidas arrancam-nos sempre um pedaço de paz e de chão também. Mas há muitas delas que são necessárias, até para que o nosso caminho seja saudável e próspero!

    • Carolina
      Reply
      Carolina
      22 Março, 2020 at 0:20

      Claro que sim. Doem, mas são por um bem maior.

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