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A Rapariga da Carta

24 Junho, 2020

Ao longo dos meus curtos anos de vida, já tive leituras que me tirassem o chão, mas nunca havia tido um livro que me tirasse o sono, que me deixasse isenta de palavras para exprimir o que sinto. A leitura d’A Rapariga da Carta é angustiante, dramática e arrepiante. De tirar o fôlego, desde a primeira página, até à última.

A Rapariga da Carta, inicia-se nada mais nada menos do que com uma carta, escrita por Ivy Jenkins, uma rapariga que foi abandonada pela família e pelo namorado que amava, à porta de St. Margaret, uma casa de acolhimento para mães solteiras, grávida e totalmente esperançosa de que a sua sorte iria mudar e que aquele não seria o seu presente por muito tempo.

“Meu amor, 
Sinto-me apreensiva por não ter recebido notícias tuas. Todos os meus receios foram confirmados. Estou grávida de três meses. É tarde demais para fazer seja o que for, é a vontade de Deus que o nosso bebé nasça.” 

Por outro lado, temos a história de Samantha Harper, jornalista e mãe solteira que tenta a todo o custo agradar ao seu chefe que desde o seu regresso ao trabalho, após a maternidade, lhe tem dado os piores casos para investigar e escrever. Ao chegar a casa, a sua avó, Nana, entrega-lhe uma carta que estava a ler. O conteúdo na mesma, angustiante, deixa Sam curiosa, que parte na aventura de descobrir o que foi feito em St. Margaret, onde recentemente foi encontrado o corpo do padre Benjamin, que ajudava na instituição e é mencionado na carta de Ivy. Com apenas dois dias para descobrir o mistério que envolve a casa vitoriana, em Preston, que irá ser demolida após vários anos de inquéritos, Sam entra num caminho sem volta, onde a sua própria família é envolvida.

“Numa outra vez em que tive de limpar essa sala, encontrei um bebé morto. Havia sido deixado no caixote do lixo, envolto num cobertor ensanguentado. Tirei-o de lá e embalei-o; chorei e disse-lhe que ele era amado, até que a madre Carlin apareceu e o levou para o atirar para o tanque, para onde vão todos os bebés mortos.”

A busca de Sam pela verdade, vai desvendar segredos enterrados há muito tempo, uma série de mortes que ao que tudo indica foram suicídios ou lapsos; e uma história perturbadora sobre várias raparigas, entre os 14-20 anos, que foram abandonadas pelas suas famílias e deixadas à desgraça em St. Margaret, onde sofreram, trabalharam arduamente e onde foram obrigadas a dar os seus bebés para adoção e a ouvi-los no berçário a chorar desalmadamente, sem as ter por perto. As crianças, que nunca chegaram a ser adotadas, eram submetidas a ensaios clínicos e a trabalharem ao mesmo tempo, sendo que muitas terminaram por morrer com os efeitos dos medicamentos que eram obrigadas a tomar.

Sam irá ao encontro da história da famosa Kitty Cannon, nascida em St. Margaret, que quis o destino que fosse poupada às atrocidades das freiras e fosse viver com o seu pai biológico e mãe adotiva, deixando a sua irmã gémea, Elvira, para trás. Também encontrará os indícios de que as mortes da freira superiora, madre Carlin; Helena Cannon; pai de Kitty; padre Benjamin; Dr. Jacobson e Dr. Richard Stone não foram um acidente ou suicídio, mas sim homicídio.

“Durante a hora seguinte, a madre Carlin atirou-se a mim com a sua tesoura, cortando a última parte de mim em que eu tinha tanto orgulho: os meus longos cabelos ruivos. A cada mecha de cabelo, ela certificava-se de que a lâmina passava bem perto do meu crânio, de modo que fios de sangue escorriam pelo meu rosto.”

O sufoco que sentimos, em cada passagem de horror, é estrondoso. Um pesadelo sem fim, foi o que todas aquelas raparigas sofreram, só por terem engravidado solteiras. Mais angustiante é saber que essas histórias, são inspiradas em factos reais acontecidos na Irlanda e em Inglaterra.

Como Emily Gunnis referiu, não foram as freiras as maiores causadoras de dor, do infortúnio destas jovens, mas sim os seus familiares, namorados e amigos, que as abandonaram naquele local, sem pensarem no que lhes aconteceria, se iriam morrer ou não; sem dar a mínima importância aos bebés que iriam nascer. E sobretudo, pela vista grossa ao que acontecia naquele lugar. Foi a falta de humanidade, de amor e de compreensão.

“As freiras são os rostos desta instituição, mas não foram elas que nos puseram aqui. Quem nos pôs aqui foram os homens que amamos, os nossos pais, os médicos, os vigários, todos aqueles que deviam cuidar de nós, mas que nos abandonaram. Se não nos tivessem voltado as costas, as camas de St. Margaret estariam vazias.”

A Rapariga da Carta é sem dúvida o meu livro favorito de sempre. O melhor que já li, na minha curta vida literária, que nos levará a um tempo distante, onde mulheres solteiras eram abandonadas à desgraça, onde tinham de viver miseravelmente, sem terem a escolha de estarem perto dos seus bebés, onde a maioria caía numa depressão sem fim.

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