pessoal

2010.

18 Maio, 2020

Em 2010, com apenas 10 anos, era uma miúda ingénua, tímida, que acreditava em tudo o que as pessoas diziam, que não entendia o que tinha de mal em mim, mas que tanto dava que falar às minhas colegas. Era uma miúda que tentava enquadrar-se em algum grupo, em fazer amigos, em tentar ser melhor, quase a entrar na escola grande (para o 5.º ano).

Há 10 anos atrás era apenas uma miúda ingénua, assustada e com muito medo, mas com menos medo do que agora. 10 anos depois, já não sou mais a miúda ingénua que acreditava em todas as palavras, todas as promessas feitas de mindinho, em todas as frases que escrevia no caderno na escola, nem que acreditava que um dia os miúdos da escola iriam olhar para ela. Já não sou mais a amiga que faz tudo pelos outros, que deixa passarem por cima. Já não sou inocente. Faz parte da vida. Se não fosse aos 10, seria a qualquer idade, mais cedo mais tarde. Todos nós perdemos a nossa inocência algum dia.

Já não me assusto com o desconhecido ou com vozes alteradas. Já não tenho medo dos grupinhos de bullies. Mas tenho medo do que não consigo controlar, do esquecimento, das memórias que ainda guardo e que podem simplesmente evaporar-se, a qualquer momento, durante os anos que se passam. Atualmente, sinto o peso da idade. O quanto a idade avança depressa. Quis tanto chegar aos 18 e eles já lá vão, com a maior velocidade, o comboio vai passando, quer queira quer não.

Hoje sei que há coisas que não devemos fazer pelos outros. Que deveria ter continuado em tanta coisa que gostava, mas que deixei por medo ou por preguiça. Hoje queria poder ser aquela miúda assustada de novo e dizer-lhe que era a rapariga mais forte que alguma vez conheci, que ela iria enfrentar batalhas duras e que iria vencer cada uma delas. Que durante o processo, não devia deixar de amar-se e de estimar o seu corpo. Que era uma pessoa muito especial e que tinha de a ser para ela própria.

Só que essa miúda cresceu. Evoluiu. Aprendeu com os seus próprios erros, sem mãos onde se apoiar, tapando os seus próprios receios, ignorando o medo, deixando o coração falar baixinho e a cabeça decidir o caminho. Aprendeu com cada ferida exposta, com cada marca permanente. Cresceu encarando-se de uma forma. Até hoje, essa forma já mudou tantas vezes. E a cada dia, esforçamo-nos por ser a nossa melhor versão e por nos aceitarmos tal como somos.

Essa miúda cresceu, mas há tanta coisa boa ainda nela. Aprendeu a amar de verdade, a confiar novamente. Aprendeu a abrir-se com as pessoas, a despir a sua alma e a ter calma e positividade.

Há tantas coisas que perdemos nesse processo de crescimento e de amadurecimento, mas se há coisa que não perdi foi o sentido de humor. A forma como dou uma gargalhada, como ainda conto as piadas, como gosto de ver e fazer alguém rir. No fim de tudo, continuo a ter em mim algo que não mudou com o tempo, que apenas se intensificou. A alegria aqui ficou.

Existem dias bons e outros menos bons, porém há sempre uma gargalhada neles. E se pude sorrir alguma vez num dia, então já valeu a pena estar aqui para vivê-lo. Existem acertos e erros. Nem sempre vamos errar, nem sempre vamos acertar. No meio, vamos tentando encontrar a forma de chegar ao nosso lugar, ao nosso destino, para o qual trabalhamos todos os dias.

Se alguma vez aquela miúda de 10 anos imaginou este presente? Creio bem que não. Se me imaginaria forte, determinada e calma? Obviamente que não. Existem tantas surpresas para nós reservadas, que só poderemos descobri-las vivendo cada dia como se fosse o único. Não deixaremos de aprender nunca. Por mais idade que possamos ter.

Em 2010 não estávamos a passar por uma pandemia. Estava saudável, indo à escola e aproveitando cada dia, cada vez mais perto de me tornar pré-adolescente e entrar na escola nova.

2020 é um ano diferente. Não sabemos o dia de amanhã, não sabemos o que nos espera ainda, mas de algo tenho a certeza: temos tanto a fazer hoje. Hoje temos certezas e hoje vivemos com elas. Amanhã logo se vê, quando lá chegarmos.

2010 passou. 2020 também passará. Reserva-nos coisas melhores. Já passamos por coisas boas e más. Cá estamos depois de tudo, mesmo quando pensávamos que não iríamos conseguir, passamos mais um dia, mais um mês e mais um ano. Somos fortes! E continuaremos sendo!

À miúda de 10 anos: ainda bem que não desististe e que não paraste até então. Que futuro miúda, que futuro! Saímos-nos bem melhor do que o previsto e a partir daqui, só iremos melhorar mais e mais! Bora!

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    Andreia Morais
    18 Maio, 2020 at 14:12

    Precisamos de passar por todas as condições para evoluirmos e nos tornarmos no adulto que pretendemos ser. Claro que isso, por vezes, implica algumas quedas, algumas angústias, algum sofrimento, mas, à medida que vamos crescendo, vamos conquistando novos mecanismos de defesa.
    Tenho a certeza que o teu eu de 10 anos está muito orgulhoso da mulher que és, hoje!

    • Carolina
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      Carolina
      25 Maio, 2020 at 11:22

      Não diria mais. Certamente que está orgulhoso. E cada vez mais. Muito obrigada pelas palavras querida ❤

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    Nea*
    20 Maio, 2020 at 21:22

    Como eu costumo dizer: Vai que é tua!

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