desafios

12 horas.

18 Julho, 2020

Quando finalmente o alarme soou, tirando-me da solitária insónia em que estivera envolvida, soube que aquela primeira segunda feira de julho seria um péssimo dia para enfrentar o mundo, fora das minhas quatro paredes.

Após umas quantas quase-quedas a caminho do escritório, que fizeram-me ter mais vergonha, do que se tivesse de facto caído na rua, esbarrei-me num aroma familiar. Ignorei e apressei o passo. O elevador mais próximo iria fechar-se em escassos segundos. Consegui chegar antes que pudesse fechar-se, evitando desse modo, uns quantos minutos em agonia na espera do próximo.

No estado em que me encontrava, só notei pela outra presença dentro do mesmo pequeno espaço, quando o mesmo estancou. Calmamente, cliquei no botão de alarme e voltei-me para o lugar antes ocupado.

O destino coloca-nos no caminho, as pessoas que mais precisamos, ainda que nas primeiras quatro horas fechadas num covil abafado – desesperando com a espera e o sermão que levaria mais tarde pelo atraso –, só conseguisse pensar no infortúnio que tivera ao debater-me, precisamente, com aquele indivíduo, que em tempos tanto sofrera para desaparecer completamente da minha mente.

As lembranças não tardaram a visitar-me, menos odiosas, menos penosas. Vivêramos um relacionamento tóxico onde a manipulação e o controlo eram o alicerce de tudo. Havia tido a coragem, depois de uns quantos episódios infelizes, de soltar-me das amarras que me aprisionavam e armei-me com as maiores armas que tinha, com certo pavor. Ganhara a coragem necessária para mandá-lo embora, mas demorara demasiado tempo a depositar todos os seus pertences no lixo Da esquina do meu prédio. Os objetos podem ter memórias mais sofridas do que as que somente visitamos em sonhos ou em pensamentos. Ter um objeto que nos leve a locais visitados, conversas trocadas, beijos dados, sonhos planeados, deixam-nos isentos de pensamentos positivos e a solidão volta a envolver-nos nas suas vestes para levar-nos para um cantinho escuro.

Passadas as 11 horas dentro do elevador ainda parado e sem manutenção à vista, sentada no pequeno espaço claustrofóbico, com alguém que em tempos odiara e guardara rancor, nada consegui sentir. Não sentia rancor ou mágoa. As memórias que curiosamente visitei não me souberam a fel, e inesperadamente, debati-me sobre o quão tinha amadurecido nos últimos tempos.

Não trocáramos o silêncio por palavras vazias, propusemo-nos a ficar apenas sentados, esperando a salvação, mas dividindo o ar entre ambos. Ainda que sem palavras no ar, senti-me em paz, finalmente. E, pela primeira vez, a ideia de que se me odiava ou não, não me fez diferença, pelo simples motivo de que o tempo tinha passado e já nada importava. Ao fim de tanto tempo, tinha conseguido ultrapassar o ódio que sentia, a mágoa que cravara o meu coração e seguira em frente.

Assim que o elevador voltou ao seu normal funcionamento e saímos, seguimos os nossos destinos, em sentidos contrários e senti-me aliviada e feliz. Ter enfrentado o mundo, hoje,  tinha sido satisfatório porque entendera que dentro de mim já nada pulsava por ele, nem o odiava. Finalmente, ganhara a noção do quão em paz estava, livre de toxidades e de ódio.

Mergulhei de volta às ruas, solta, livre, serena e feliz. Tinham sido as 12 horas mais simples e mais pacíficas de toda a minha vida, dentro de um simples elevador com quem odiei, por muito tempo. Está na altura de seguir.

[Publicação inserida no Projeto 642]

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    Andreia Morais
    18 Julho, 2020 at 19:11

    Há momentos em que precisamos destas privações para sentirmos o quanto crescemos e como há fantasmas que ficaram no sítio onde pertencem: no passado!

    • Carolina
      Reply
      Carolina
      21 Julho, 2020 at 13:34

      Ora nem mais. O que já passou, passou. Não podemos trazer para o presente o passado já vivido.

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