Maternidade Real

Ao entrar em casa ouvi a melodia alegre que provavelmente eles cantavam e tentei fazer o menor barulho possível. A porta da casa de banho estava aberta expondo o divertimento deles. A pequena se divertia atirando imensa água para fora da banheira e meu marido apenas cantava para ela com a maior tranquilidade do mundo. Era invejável a sua calma quando tudo parecia estar acontecendo de forma errada.

Fiquei em silêncio vendo a forma como eles se pertenciam, quase como um só. Vi o peluche dentro da banheira – aquele que tantas vezes pedi para que ela não o levasse para lá pois tinha de o lavar todas as vezes e era uma briga enorme para ela dormir sem ele – respirei fundo e acalmei-me. Do lado da menina vi meu champô vazio sabendo que o havia comprado dias antes, me acalmei de novo. E novamente vi-o tão calmo vendo tudo acontecer. E ele apenas se limitava a cantar para que ela se divertisse ao máximo. Tentava lhe entender ou até aprender.

Eu chegava cansada nos dias em que trabalhava fora e ele estava de folga mas eu o admirava mesmo nos dias em que não estava em casa o tempo todo. Admirava a forma como tinha sempre paciência para cuidar de nós com tanto carinho, admiração, paciência e amor. E do nada estava pensando em tudo. O quanto queríamos um filho em nossa vida. O quanto sofremos para tê-lo e então percebi. Eu estava fazendo tudo errado. E não havia mal nenhum nisso. Afinal a maternidade é cheia de erros e tentativas falhadas. E eu apenas me tinha dado conta disso agora. Antes tarde do que nunca, não é mesmo?

Nesse mesmo instante que tinha dado conta do quanto me importava por ter tudo sempre do meu jeito, sem nada desarrumado – coisa impossível tendo uma criança em casa mexendo em tudo -, que eu apenas me chateava por coisas tolas e sem senso algum, eles estavam observando meus gestos. Na banheira a menina já não brincava nem atirava água para o chão e aqueles olhos verdes me olhavam tal como a primeira vez – sem qualquer desilusão -, esperando que eu fosse zangar-me como sempre. Contudo, eu não queria ser assim.

Eu que tinha medo de desarrumar algo porque sabia que o chinelo corria atrás de mim caso o fizesse, eu que não tinha opinião ou que não podia pedir nada, não queria que a minha filha tivesse esse mesmo medo. Ela não deveria ter medo de mim, visto que a quis tanto e a amava incondicionalmente.

De corpo e alma, entrei com a farda dentro de água e atirei a água à pequena com espuma ainda no cabelo. E a diversão continuou. Muita água caiu, ficamos molhados, a água esfriou porém os nossos corações estavam ligados feito cordão umbilical e eu estava tão feliz com isso… Todos nós estávamos. Tinha vivido uma infância feliz mesmo sendo adulta. E deveria ser assim todos os dias. Eu deveria me sentir grata por poder compartilhar uma alergia constante e comovente, por ter o amor inocente e puro da criança que cuidava com todo o amor do mundo. E não havia mal nenhum em ter a casa suja naquele dia, nem nos dias seguintes visto que ia dormir feliz invés de cansada.

A maternidade real é cheia de se’s, de erros, de tentativas, de brigas mas no fim não vivemos sem aqueles seres que nos fizeram renascer e aprender a cada instante das suas vidas.

Dê graças ao que tem, aproveite tudo ao máximo e se divirta feito criança com seus pequenos. Acredite: eles irão lembrar-se desses momentos para sempre. ❤️

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  1. Que texto lindo! E é tão verdade a mensagem que ele envia. Não tem de ser tudo perfeito e dentro dos moldes que teimam em nos dar, tem de ser verdadeiro e cheio de amor 🙂

    Um beijinho!

    1. Exatamente! Tem de ser exatamente como queremos senão não era real. A imagem que nos passam é que é tudo perfeito e não é. Obrigada pelo carinho. ❤️ Beijinhos

  2. A maternidade não é uma linha reta. Há muitas curvas pelo meio. O importante é aprendermos todos os dias e estarmos atentos à possibilidade de existirem mais momentos como esse.
    Adorei o texto *.*

    r: Tem mesmo! Ainda hoje de manhã esteve a dar e não consegui resistir. É um filme fantástico

    Beijinhos*

    1. Exatamente! Obrigada querida! 💜💜

  3. r: Ficam tão lindas!

    Obrigada e igualmente*

    1. Obrigada ❤️

  4. Vamos errar tanta vez, mas também iremos abrir os olhos. A maternidade não é uma coisa que nasce connosco, que aprendemos à primeira. Em família vamos descobrindo e dar o nosso melhor *-*
    Adorei o texto querida <3

    1. Exatamente. Há que aprender com os erros. Fico feliz por teres gostado. Beijinhos 💜

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