Além de ti, ela só quer saber de si mesma

Há muito que tentava descodificar o seu olhar, a sua forma de viver e o seu sorriso radiante. Por vezes, sentia que algo a impedia de viver intensamente, porém, em vez alguma baixou os braços e deixou de prendar-nos com boa energia. Via nela uma maneira de recomeçar. Aquela que tentava a todo custo alcançar.

Mas ela só queria a sua única companhia nas noites frias, no caminho para casa e nas tardes de fim de semana. A sua vida era demasiado preenchida para ter um espaço pra que pudesse entrar. Entendia pela sua forma de falar que não queria ninguém do seu lado. Eu era apenas mais um colega que tinha o prazer de tê-la como amiga. Por vários anos, isso bastou-me. Compreendia a sua forma desesperada de viver tudo intensamente sozinha, livre de qualquer homem que a derrubasse, de qualquer palavra que a magoasse, a ponto de partir-se aos bocados.

Nos seus olhos, durante aquelas férias de verão vi o sofrimento que neles pairava. Contudo, os seus dentes brancos estavam sempre visíveis. Sempre estiveram. Os olhos tristes. Dizia-lhe as palavras que por anos pratiquei na frente do espelho e gargalhando nervosamente, explicou-me que não havia espaço no seu coração para mim. Ela não queria depender de ninguém, nem que alguém fosse dependente dela. Explicou-me portanto que, em tempos passados alguém deu-lhe uma prenda muito especial e que essa mesma seria dependente dela para todo o sempre, só que, sem que desse conta, perdeu-a. Do dia para a noite. Nesses dias, entendeu que só iria pensar em si mesma daí em diante. Nunca mais deixaria que eu ou outra pessoa qualquer, interferi-se na sua busca incessante de paz interior – essa que tinha sido roubada quando sofreu o aborto.

A sua explicação deixara-me de rastos. Ao que parecia ser algo pequeno, transformou-se em um sentimento que só ela conseguiria entender, sentir. Poderia tentar tê-la, mas iria falhar sempre. Afinal, ela não era a rapariga mais fácil, nem a que enganava-se com pouco. Não mais. Ela só queria saber de si mesma e da sua vida.

E nas semanas seguintes vi o que fazia nas tardes de domingo: brincava com a sobrinha, alegremente. A sua força era espantosa. Não tinha conseguido ser mãe, provavelmente nunca mais o seria, no entanto, conseguia fazer uma criança gargalhar por horas, levando-a à exaustão de alegria.

Nos dias em que a vi, tive o orgulho de poder estar apaixonado por si. E não importava se não a conseguia ter por completo, visto que a sua convivência comigo e a sua força eram-me suficientes. Com ela percebi que o amor traz-nos coisas infinitamente boas, porém leva-nos pedaços de nós, a cada erro e mágoa.

Eu só queria saber dela, ainda que fosse mais um. Fora ela que escolheu-me, sem nem sequer saber. Fora sempre ela, aquela que quis ter. Porém, só dela quer saber, só aquela estrela a faz viver. Saibas tu estrelinha que a tens por inteiro.

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  1. Cassy Frost says: Responder

    Ela é o seu porto seguro

    1. Pois é. Beijinhos 💙

  2. Estou sem palavras, que texto maravilhoso, minha querida *-*
    O amor tem essa força infinita! E, de facto, é extremamente importante sentirmos essa paz interior, estarmos bem connosco e não colocarmos o nosso caminho à responsabilidade dos outros. Ainda assim, acho que todos nós precisamos de alguém por perto (não necessariamente numa relação amorosa), porque é uma forma de não sucumbirmos, de não cairmos no abismo quando os dias menos bons se fazem notar.

    Beijinhos <3

    1. Exatamente. Daí ele estar perto dela, mesmo que não estejam a ter um relacionamento amoroso. Por vezes, a amizade basta-nos. Fico muito contente por teres gostado do texto. Beijinhos minha querida 💙

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